abril 07, 2006

A relatividade do juizo

Ando a ler AS MEMÓRIAS DE ADRIANO, de Margueritte Yourcenar. A dado trecho, Adriano lamenta o comportamento dos sármatas que queimam os prisioneiros, ainda vivos; já ele, Adriano, limita-se a degolá-los. A ética subjacente a este juizo é de uma relatividade surpreendente. Hoje, o teor de relatividade que adorna os conceitos acentuou-se ainda mais. E de tal forma que, para além de domínios como a semântica, onde sempre reinou, entra com tudo na epistemologia, ciência dada a acabar com toda a espécie de... relativismos e confusões.

No que respeita à semântica, considere o significante "porra". No espaço de 3 gerações, é despromovido de substantivo a interjeição, ao nível dos inocentes "irra", "apre", "eia" e do (um pouco menos inocente) "chiça". Mais, nas mesmas três gerações, vulgariza-se, adocica o significado e democratiza-se ao ponto de não chocar ninguém ouvi-la da boca de uma senhora (julgo que no Brasil as coisas não aconteceram tão depressa e o significado se mantém pesadote). Que diria Bocage?

Não me choca muito, ou não me choca tanto como o abandalhamento da semântica dos actos. E foi por isto que me pus a discorrer, há dois parágrafos atrás. Falo do nepotismo, do empreguismo e clientelismo, na ocupação de cargos na administração pública. Mas já lá vou. Não há muitos anos, um homem hipotecava as barbas e respondia por elas; retorquia a um insulto com um duelo de sangue; no séc. XIX, ainda se prendiam os adúlteros; era eu adolescente, um homem foi condenado a uma pena de quatro anos de prisão porque planeou e consumou o assassinato (qualificadíssimo) da mulher e do amante.

E hoje? Algumas pessoas acusadas de corrupção riem, deslavadas, à porta dos tribunais. Autarcas sob o peso da suspeita de negócios escuros voltam a candidatar-se aos lugares onde, supostamente, praticaram os crimes de que são acusados. Escudam-se na certeza da dúvida: mesmo que venham a ser condenados, afirmar-se-ão (convictamente) inocentes. E haverá sempre margem para alguma insegurança: "será que o homem é mesmo culpado?" É uma atitude que traz dividendos, esta espécie de frentismo voluntarista e amoral, veja-se a facilidade com que recuperaram os cargos públicos em Felgueiras, Oeiras e Gondomar os três acusados que todos conhecemos. E não falo do futebol, ainda não ouvi ninguém reconhecer-se culpado de tráfico de influências ou corrupção activa. Podem estar todos inocentes. Há pouco menos de cinco décadas, homens injustamente acusados suicidavam-se por não suportarem o peso da suspeita.

Terminemos, então, ilustrando uma situação de nepotismo (onde o aviltamento da semântica dos actos mais mexe comigo). Imagine um jovem licenciado, à procura de primeiro emprego. Vê um anúncio num jornal e acha que é mesmo aquilo que sempre procurou. É numa Câmara. Vive a 200 km mas não faz mal, se ganhar o concurso muda-se, de armas e bagagens, à procura do sonho. Escreve o currículo com todo o cuidado mais a carta de apresentação, envia tudo pelo correio e fica à espera. Algum tempo depois, chamam-no para uma entrevista. Enche o depósito do carro com aquele líquido que tem a cor (e o preço) do ouro, mete rodas ao caminho,chega cedo, almoça no tasco ao lado do edifício autárquico e percebe que há por ali outros candidatos. São todos da região, já não se metem em grandes aventuras, as viagens estão caras. E depois, pasme-se, todos já conhecem o nome do feliz novo funcionário da CM. É um rapaz que já colabora com a autarquia há uns bons meses. À entrevista, continuam todos a ir. Para praticar, para se mostrarem. Têm esperanças (nunca se sabe) de um dia, o País onde nasceram ser liderado por homens mais sérios. Ou de terem, também eles, a sua oportunidade de empreguismo.

Os sármatas assavam os prisioneiros ainda vivos; Adriano, degolava-os; os chefes de Portugal fazem ainda melhor: cozem os jovens em lume brando e recusam-lhes a esperança.

Publicado por ACarvalho em abril 7, 2006 07:23 PM
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