abril 06, 2006

20% de (aparente) optimismo

Olha se os portugueses fossem tão pessimistas como se apregoa... Vinte por cento (sim, 20%) dos inquiridos numa sondagem acreditam que vão ter uma vida melhor, nos próximos 365 dias.

Optimismo congénito? Não, nós somos o país do fado, da má sina, dos fatalismos predestinados. Então...? Como se justificam estes números? Inconsciência? Loucura? Já atingimos o zénite da parvoíce e flutuamos sobre a realidade?

Nada disso, continuamos como sempre fomos: tristes, indiferentes, sem esperança, vergados à estrofe do xale negro. A verdade é esta: em cada cem pessoas inquiridas, vinte já desceram, em vertiginosos trambolhão, todos os degraus da escada onde viveram, "tem-te não caias", durante algum tempo. Foram direitinhas à cave e não há mais por onde cair. Para estes, a vida só pode melhorar, daí o aparente optimismo. Sem dinheiro para a prestação do carro ou da casa, com uma execução fiscal publicada no jornal da terra, sem emprego, mulher doméstica, filhos na escola, expliquem lá a esta gente que tudo isto é a (pequena, ainda que detalhada) factura da suprema felicidade de pertencer à Europa, estar no grupo que partilha os destinos do planeta.

Perguntem, olhos nos olhos, a uma destas pessoas: "Não estás orgulhoso, pá?" Se o virem vacilar, dêem-lhe uma palmada nas costas e levem-no a beber um copo. Se, por entre os "engelhos" de testa e rugas de expressão, descortinarem um arremedo de orgulhoso sorriso por se sentir embarcado no pelotão da frente, então, nem um copo merece. É burro mesmo, não há nada a fazer.

Se as coisas não melhorarem, daqui por algum tempo, os vinte por cento de "optimistas" vão crescer até ao patamar da patetice... mas só para quem não os entende.

Publicado por ACarvalho em abril 6, 2006 10:03 AM
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