março 22, 2006

Os clarins do Apocalipse

Voltando à vaca fria dos trombeteiros de emoções (vulgo jornalistas da 3.ª geração) é costume ouvi-los justificar políticas editoriais com o interesse do público. Não sei muito bem quem é essa entidade, o público. O que sei é que não me reconheço nesse "público", não lhe pertenço. Contudo, existo. A acreditar no poder assertivo de Descartes, certamente que existo. Então? Ou há mais que uma entidade com essa designação, ou não há público senão a um nível excessivamente generalista, quase no patamar do conceito. Que eu saiba, os conceitos não vêem TV, não ouvem rádio nem lêem jornais.

Onde quero eu chegar? Quando redigem uma notícia alarmista, sem uma base sólida, com uma hipótese de realização apenas residual, os nossos escribas estão, na maioria das vezes, a escrever para si mesmos, tentando encontrar uma resposta para os próprios medos e sublimar as suas paranóias. Depois a coisa pega-se (mexe com receios ancestrais) e a paranóia ganha o estatuto de colectiva. No fundo, uma dupla recompensa para os oficiais do Quarto Poder: auto-comprazimento no exercício; e incremento das receitas que o aumento das audiências sempre traz.

O interesse do público? Se se trata de pessoas, o público agradece paz e sossego. Eu, público, encontro maiores motivos de interesse na descrição literária de uma repartição do registo civil do que numa notícia sobre a (hipotética) pandemia de gripe.

Publicado por ACarvalho em março 22, 2006 01:33 PM
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