Os serviços noticiosos dos canais de TV portugueses trabalham muitíssimo bem. Sequiosos de audiências, apostam sempre no pior: a gripe das aves tem sido glosada em todos os sinistros tons dos mais obscuros medos da populaça.
Nem nos tempos da peste negra se assistiu a tanta chinfrineira: naquele tempo, apanhados pela rapidez fulminante do mal pustulento, os homens temiam menos a morte que a falta de tempo para expiar os pecados da vida. Não fora o trabalho árduo dos frades, na distribuição a esmo da derradeira unção pelas criaturas caídas e, não sei, não sei, talvez não houvesse hoje, nas visões de Dante, espaço para uma simples alma.
Mas há. Há o espaço suficiente para (pelo menos) albergar os tipos das televisões, os "diabinhos" que todos carregamos pacientemente sobre os ombros, um local privilegiado, dada a proximidade do aparelho auditivo e dos miolos, sobretudo estes, muito dados a fácil fervura sempre que lhes sopram perto visões aterradoras e catastróficas, como sejam as crises directivas do Sporting, as derrotas do Benfica, as proezas de Bin Laden e o poder incontrolável do H5n1.
Pois o jornalista do séc. XXI, fazedor (mais do que escriba ou leitor) de notícias, arauto da desgraça, capaz de transformar um espirro numa pandemia e uma careta do José Veiga num insulto ao Pinto da Costa, é incondicionalmente fiel ao dono, como o cão do Guerra Junqueiro. Em nome dessa fidelidade, cria o estardalhaço necessário e a fumaça suficiente que lhe garanta, a ele, à ceia, uma descansada bucha; e ao dono, audiência, anunciantes e dinheiro. Para isso, mexe com tudo, inventa tudo, conta tudo, como o "bacorote honradiço" do Sá de Miranda.
Os serviços de alerta para a gripe aviária, em Portugal, recebem todos os dias, cerca de 80 telefonemas que, até à data, contabilizam outros tantos falsos alarmes. A vizinha do 2.º esquerdo, por cima do apartamento onde moro, tem uma catatua que, espanafrando as asas, me inunda a cozinha de bafienta poalha. Cedo à tentação e ligo a alguém? Acho que não. Vou sentir a falta do cheiro a feno, doce lembrança dos meus verdes começos. Não é que tivesse por hábito comer palha, mas o cheiro, esse, acompanhou-me até aos 10 anos, trazido pela brisa que varria a eira mais próxima da minha casa, lá na terra. Continuo viciado na doce exalação, o que me conforta: se um dia tiver (mesmo) de a comer - à palha, bem entendido - não será grande o sacrifício.
Publicado por ACarvalho em março 20, 2006 03:03 PMconcordo consigo, quando refere a existência de uma espécie de paranóia colectiva sobre a Gripe das Aves. Ela existe e é potenciada e exagerada pelos Media que estão sempre prontos a exagerar uma notícia desde que isso lhes traga audiências.
Neste contexto, os Media têm preferido o Sensacionalismo à Informação. Excepção seja dada à TV2 que ontem à tarde emitiu um prudente, bem informado, mas preocupante documentário sobre o que poderia acontecer quando (não é "se") o virus mutar: pouco menos que o fim da civlização tal como a conhecemos... Exagero? Não creio... Viu a reportagem? A anos luz das nossas mini-reportagens das outras televisões...
Afixado por: rui martins em março 20, 2006 08:20 PMConcordo em absoluto com o que escreveu nas entrelinhas. Com o jornalismo televiso que temos, parece que vivemos no país das desgraças.
Todos os dias, mas mesmo todos os dias, se fazem imensas coisas boas, milhares de Portugueses labutam em prol do seu paíse aqueles senhores afirmam que o que vende são as desgraças.
Enfim, cansam-me.
Por isso deixei de ver o telejornal ou como muitas vezes digo, o momento da necrologia.
Abraço
Afixado por: Luis Moura Serra em março 21, 2006 12:04 AM