março 16, 2006

Complemento solidário

Até ontem, no distrito de Évora, foram despachadas, favoravelmente, 70 candidaturas ao complemento solidário de reforma. Uma análise a esta "fabulosa" cifra sugere-nos várias possíveis leituras:

A) Não há velhos no distrito;
B) Não há velhos carenciados no distrito;
C) Não há distrito;
D) Ninguém requer o subsídio.

A primeira leitura é facilmente refutável. Os velhos são o orgulho da região: constituem o único produto alentejano que estamos em condições de exportar, um segmento onde podemos até chegar à liderança e dominar o mercado europeu.

Quanto a velhos carenciados, recomendo um exercício: desloquem-se, à hora da visita, a um lar de idosos (linguagem um tanto rebuscada, esta, a de chamar “lar” àquilo). Não recomendo nenhum em especial. Vão e constatem, com facilidade, que ninguém medianamente remediado aceitaria ficar ali um único dia.

Pois é, seria fácil argumentar dizendo que não há distrito, melhor, não há distritos, não há Alentejo. Pedra no sapato da República Portuguesa, desde 1910, a Planície sempre atrapalhou. Ainda hoje, não passa de um obstáculo a vencer para quem quer chegar depressa ao Algarve e apanha com esta caterva de quilómetros bem suados pela proa. Mas também não é por aqui.

Os velhos não têm é esperança no deferimento da pretensão. Mesmo os que reúnem os requisitos necessários. Dá um trabalho dos diabos e serão poucos os que conseguem tratar de tudo sem ajuda. E depois há aquele pormenor do rendimento dos filhos, pré-requisito surrealista, a cheirar ao mofo de uma época em que, não havendo protecção social, todos tomavam conta de todos. Muita água passou por baixo das pontes mas temos, num governo do séc. XXI, gente cujo horizonte, em termos de solidariedade social, se situa nos meados dos anos trinta do século passado, do Portugal agrícola, do sedentarismo miserável e fatalista, um qualquer determinismo que prendia todos a todos, toda uma vida. Conheci pessoas que não saíram nunca da aldeia onde nasceram, onde viveram e trabalharam, miseravelmente, vendo morrer os seus, enquanto não chegava a sua vez.

Pretender que os filhos têm obrigações materiais para com os pais, eis algo que nos remete para esse (julgávamos nós) enterrado cenário. É desmobilizador para quem já padece de toda a espécie de limitações e se arrasta, esquecido pela prole, no proto-esquife de um asilo. E não acredita na "sorte grande".

Publicado por ACarvalho em março 16, 2006 03:53 PM
Comentários

Estou incluido naquele grupo de portugas a quem não aquece nem arrefece o facto de me solicitarem por tudo e por nada que comprove os rendimentos que tive, embora pense que o próprio estado deveria contribuir mais para evitar esse constante peditório de cópias disto e daquilo. Uma vez declarados os rendimentos ao estado, este deveria encarregar-se de facultar essa informação, no minimo no seu seio. Talvez se conseguisse uma economia processoal para todas as partes, ficando os funcionários com mais tempo para OnJobTraining...
Desloquei-me recentemente a dois centros da Segurança Social, distantes um do outro não só fisicamente mas também em termos de meio social.
Não quiz acreditar no 1.º, mas com a confirmação do 2.º fiquei com a ideia de que algo de anormal se passa com o esclarecimento que estes serviços prestam aos utentes, concretamente em relação ao CSI (Complemento Solidário para Idosos).
Quando questionados sobre os valores dos rendimentos dos agregados dos filhos dos idosos que se candidatem ao CSI, nenhum dos serviços me soube responder e nenhum tinha conhecimento dos escalões que para o efeito foram defenidos por Decreto Regulamentar. Simplesmente incrivel...
SIMPLEX SIM, mas tanto também não!
Acabaram com a versão papel do DR nos organismos estatais, mas a internet não serve apenas para "chatear"... vamos lá a aproveitar a tecnologia e fazer um pouquinho mais de auto-formação. Dizer-se que ninguem sabe de escalões nenhuns porque quem decide se o "velho" tem ou não direito ao CSI é a "aplicação" depois de se lhe aplicar os rendimentos do candidato, envergonha-nos a todos, desde o progenitor da ideia até aos CSIdependentes.
Depois de confirmar pelo DR 3/2006 que os rendimentos do meu agregado ficam incluidos no 1.º escalão, estive tentado a pedir os impressos mas, tal como a maioria dos filhos deste país depressa conclui que esta invenção eleitoral apenas serve os octagenários com saúde de ferro, é que para os outros já existia o Complemento por Dependência que além de mais SIMPLEX em alguns casos é mais vantajoso

Afixado por: CSI em abril 21, 2006 06:54 PM
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