Na linha da aposta da extinta União Soviética (e da Polónia comunista) na criação de atletas extra-hiper-dotados, sem o recurso ao tradicional (e detectável) doping, a China e a Austrália apresentaram, nos últimos anos, dois atletas cuidadosamente "programados" para vencer: o basquetebolista Ming (2,26 metros - mais 10 centímetros que o gigante Shaquille O´neill) e o nadador Ian Thorpe (pé com medida de 52 e formato a lembrar o pássaro mergulhão).
Lembro-me, nos anos sessenta, de uma(?) velocista polaca, um ser humano híbrido, meio-homem, meio-mulher. Imbatível durante um ou dois anos, desapareceu tão depressa como apareceu, carregada de medalhas mas talvez (quem sabe) arrostando uma data de problemas físicos, éticos, morais e eventualmente mentais. Não sei, nunca mais ouvi falar dela.
Em 1996, uma chinesa "programada" para vencer todas as provas de 10.000 metros, terá tido uma avaria no "chip", ao ser batida na corrida que não podia perder: a final olímpica. Derrotada pela portuguesíssima Fernanda Ribeiro, nunca mais foi "primeira página".
A manipulação genética e os alimentos transgénicos produzirão, um dia destes, um super-atleta imbatível, uma Dolly humana corrigida, um Frankenstein incansável durante meses ou anos que terá de se haver depois com as consequências que forçosamente ocorrerão, pagando, com juros, a (vã) glória de vencer. O preço que um gladiador (sempre) paga.
Sigamos as carreiras de Ming e Thorpe. Oxalá não tenhamos de os ver arrastar, um dia, penosamente, os próprios restos.
Não era nisto que Nietzsche pensava ao apregoar o seu super-homem. Ou era?
(Reflexão, a propósito de um artigo do jornal "A Bola", de hoje).