fevereiro 20, 2006

Évora, Cidade-Museu, no coração do Alentejo

Texto também publicado no forum do site dedicado à artista plástica e poetisa
Maria de Fátima Moura.
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Há dois anos, o "Expresso" comparou 48 cidades portuguesas e concluiu que Évora seria a melhor de todas para viver. Olhei os 15 parâmetros considerados, como se olha para uma estatística, fria nos números, talvez certeira nos resultados. Cidade feita paraíso? Talvez, mas a partir de uma lista de referentes que não contempla esse incómodo pormenor que é a vida económica, calcanhar de aquiles de todo o Alentejo. Um parque industrial que cresceu imenso mas, inexplicavelmente, não se sente aqui o pulsar das cidades que transbordam dessa energia vital que produz riqueza. É, contudo, o único lugar do centro alentejano que tem visto a sua população aumentada, pelo mirrar das vilas e aldeias de 50 quilómetros em redor. Quase de forma surpreendente, a cidade possui uma variada oferta hoteleira, para a sua dimensão, e o último dos seus empreendimentos é o Hotel do Convento do Espinheiro, cinco estrelas de conforto feito luxo, morada do estágio da Selecção Nacional de Futebol, a partir de Maio.

Évora vive, portanto, da oferta turística. Dotada do invejável estatuto de Património da Humanidade, assiste, dia após dia, à chegada de autocarros carregados de estrangeiros, ansiosos por fixar os seus monumentos e as suas vielas antigas. Ei-los, às centenas, sobretudo asiáticos, disparando as objectivas sobre o que os rodeia, com o afã de quem nada quer perder. Vive também dos seus estudantes, os oito mil nómadas que alugam as velhas casas do Centro Histórico, animam a restauração e a noite e têm gerado a multiplicação de bares, cafés e similares. A sua debandada, no fim-de-semana e nas férias, traz às ruas e às praças o jeito medieval que, em meu entender, será um dos seus encantos. Nesses dias, sente-se aqui o travo de uma cidade perdida, estranhamente incólume, mirada por grupos de forasteiros, falando baixo, contagiados pelo silêncio que os rodeia.

Se Évora é uma cidade com uma economia por desabrochar, só à luz de encantos vários poderá ser olhada como a melhor para viver, uma magia qualquer que, quem sabe, terá tocado os repórteres do "Expresso". Como eu os entendo. É que, na realidade, existe uma forma diferente de avaliar a cidade onde vivo, capital do distrito onde nasci. Sinto mais vontade de olhá-la como a olhou Florbela Espanca, aluna no liceu da cidade (...ruas ermas, sob o céu de violetas roxas... só aqui recordo que foi meu, o sonho que sonhei noutras idades...). Um pouco à imagem do sentimento de Eugénio de Andrade, falando não duma cidade, mas do seu (nosso) País (...O meu País sabe às amoras bravas no Verão...). E julgo que, para ser sincero, esta forma, parcial, subjectiva, emocional, exclusiva, de avaliar a terra que consideramos nossa é a que mais me diz.

Vivi em Évora desde os onze anos, cada rua me reconta uma história ou me remete para uma memória. Sempre que percorro as Arcadas, passo no Templo Romano, ou na Rua da Sellaria (mil vezes caminhada por Virgílio Ferreira, em direcção ao liceu), faço uma dupla viagem, no lugar e no tempo.

Évora monumental (da Igreja de S. Francisco, da Capela dos Ossos, do Palácio de D. Manuel, da Sé romano-gótica, da Muralha Medieval, da Porta de Moura, do Convento dos Lóios, da universidade seiscentista, ou da sua bonita ágora, a Praça do Giraldo) será um regalo para os olhos. Mas nenhum turista consegue fixar, na máquina fotográfica, o instantâneo temporal e afectivo que me é permitido, num relance, num olhar.

Vivi 30 anos em Lisboa e sempre ali me senti deslocado, inseguro, provinciano. Por isso, voltei, logo que me foi possível. Foi aqui que me fiz homem, foi aqui que aprendi a amar as pessoas e as coisas. É aqui que me sinto no País que sabe às amoras bravas do Verão, quem sabe… um dia regadas pela água doce do Grande Lago do Alqueva, esperança de um povo ainda preso à magia de uma qualquer moura encantada, saída de uma lenda sarracena.

Peço desculpa por uma apreciação subjectiva, egocêntrica, quase egoísta. Não consigo olhar esta terra com o distanciamento frio que uma avaliação rigorosa requer. Mas é deste modo que a sinto. Visitem-na e… dêem-me razão.

Publicado por ACarvalho em fevereiro 20, 2006 01:03 PM
Comentários

Estive em Évora à 3 anos a passar uma semana a escrever um dos meus livros impublicados... Corri a cidade e os arredores (naturalmente visitei o cromelech) e apaixonei-me pela cidade, pelas gentes e até pelas minhas raízes alentejanas... Se hoje pudesse realmente escolher onde viver (e o emprego?) escolheria Évora. Por isso só tenho uma coisa a comentar: sortudo!

Afixado por: Rui Martins em fevereiro 20, 2006 02:09 PM

Obrigado!

Afixado por: ACarvalho em fevereiro 20, 2006 03:32 PM
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