Claro! Muito mais dinamarqueses do que os cartoonistas foram capazes de ser. Os nórdicos não têm culpa de ter compatriotas que, em nome da sacrossanta liberdade de expressão, sejam capazes de ferir o sentimento mais profundo de milhões de pessoas. Dir-me-ão que o António também enfiou um preservativo no nariz do Papa e as ondas de choque nem ao joelho chegaram; mas nós conseguimos sempre um golpe de rins e sabemos relativizar as coisas, afinal temos mais 700 anos de caldo religioso que os muçulmanos, muitos anos depois das fogueiras, da carne assada, dos autos de fé e das câmaras de tortura, somos capazes de planar sobre a blasfémia com o distanciamento calejado das barbáries que, em nome da fé, cometemos.
Pois seja, solidarizemo-nos, mas numa solidariedade de dupla matriz: pelos dinamarqueses e pelos milhões de muçulmanos que acreditam que a vida toda se condensa no escrupuloso cumprimento das leis do Corão, que nunca fizeram mal a ninguém e que se sentiram genuinamente chocados pelo acto livre de uns tipos fundamentalistas do acto de ser livre que, no caso vertente, mostraram falta de jeito para, livremente, se exprimirem.
Publicado por ACarvalho em fevereiro 11, 2006 12:11 PM