janeiro 19, 2006

A moral das hostes

Entrevistas a 8.000 cidadãos europeus, num inquérito levado a efeito pelo Observador Cetelem (ligado ao Banco Cetelem, de crédito ao consumo) mostram que:

os portugueses são os mais inquietos (65% dos cidadãos, contra uma média europeia de 41%) e mais revoltados (17%), sendo os menos resignados com a situação actual (3%).

Acredito que somos os mais inquietos, alimento algumas dúvidas que sejamos os mais revoltados e não acredito, decididamente, que sejamos os menos resignados. O comportamento dos cidadãos portugueses é abúlico, indiferente e fatalista, parecendo esperar sempre até ao limite do inadmissível, descerrando condescendentemente a pálpebra se o céu lhes cair na cabeça. Não conhece (nem está interessado em conhecer) os seus direitos, nem em fazer valer, ou requisitar, muito menos exigir, o estatuto de cidadão inteiro.

Será que reagiríamos da mesma maneira se um dia, personagens de uma parábola qualquer, nos conduzissem, em consciência, a um precipício sem remissão para nos despenharmos, como "lemmings", num vôo de morte certa?

É minha convicção que sim.

Publicado por ACarvalho em janeiro 19, 2006 06:52 PM
Comentários

Concordo que a nossa matriz cultural faz de nós um dos povos mais resignados da Europa, e que esta resignação está na directa raiz da actual situação do país. Mas existem sinais de mudança... Cada vez se protesta mais e melhor... Se os tribunais funcionassem (não funcionam e cairam em descrédito) assistiriamos a uma multiplicação de queixas. Penso que a geração que começa agora a entrar na vida activa está finalmente livre das prisões erguidas no salazarismo e nos turbulentos anos de Abril. Acredito muito nessa geração. Veremos se o tempo (quando esta chegar ao Poder) me dá razão...

Afixado por: Rui Martins em janeiro 19, 2006 07:49 PM

Concordo totalmente com a sua análise e penso que as conclusões do estudo apenas demonstram a capacidade portuguesa para a retórica sem consequências. O melhor exemplo disso é o próprio hino nacional. Seria impossível definir melhor a atitude portuguesa: fizemos e ficámo-nos com a portuguesa: às armas e outras tretas enquanto os inglesees nos impuseram e impuseram internacionalmente o mapa cor de rosa. Mas as lusas consciencias ficaram tranquilas na pequenina mediocridade da sua reacção.

Afixado por: Fernando C Lopes em janeiro 19, 2006 09:12 PM

Comcordo inteiramente. O espírito acrítico, o discurso único, o vazio de ideias tornaram-se a regra, fruto de uma cada vez menor cultura política e de cidadania onde destoar ou protestar é visto como pecado quase mortal e abunda a iliteracia. Desenvolveu-se uma sociedade alienada, onde muitas vezes os cidadãos sabem mais da vida da família real britânica que dos seus próprios direitos, em que a indignação se manifesta mais relativamente a assuntos como esse que por motivos de solidariedade com alguém próximo ou até relativamente ao desrespeito dos seus próprios direitos de cidadão ou de consumidor. Veja-se quantos preenchem um livro de reclamações quando se sentem lesados ou veja-se o discurso que mais tem agradado aos portugueses nestas eleições: o de quem, por estratégia, se remete sucessiva e deliberadamente ao silêncio.

Afixado por: Aissetie em janeiro 19, 2006 10:17 PM

Rui, gostaria que estivesse certo.

Fernando, a retórica sem consequências é, de facto, um dos nossos ex-libris.

Aissetie, o seu comentário poderia ser o meu "post".

Afixado por: ACarvalho em janeiro 19, 2006 11:46 PM
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