Um inglês veio a Évora visitar um amigo. Este, movido pela ideia de bem receber, batido na cozinha da terra, dedo para a coisa, prepara-lhe uma deliciosa sopa de cação e umas migas de espargos a lembrar o travo forte dos sabores já esquecidos.
O inglês prova um pouco do cação e larga uma careta que não engana: não gostou. Esperançado no trunfo infalível, o esforçado eborense liberta o súbdito britânico da sopa e diz-lhe, confiante, "disto vais gostar, não conheço ninguém que não goste, nenhum ingrediente desempenha aqui um papel cinzento e descartável, são todos actores principais de um manjar de deuses!" e põe-lhe à frente o festim de migas.
O inglês, apontando o nariz à caçarola, mira o pão desfeito, a carne da calda, tira três rodelas de laranja e o seu jantar fica por ali, perante a corada estupefacção do alentejano. Este entende o erro que cometeu ao avaliar mal a sensibilidade das papilas gustativas do amigo, pede-lhe desculpa por não o ter levado a jantar fora e promete-lhe "amanhã levo-te a um bom restaurante." O camarada responde "nem pensar, ficamos em casa mas sou eu que faço o almoço."
No dia seguinte, à uma da tarde, o inglês pôe, triunfante, sobre a mesa, bem enfeitada, uma salada profusamente composta: couve branca, couve rouxa, tudo cortado, uma cenoura ralada, talos de aipo picados, uma maçã cortada em cubinhos, sultanas, pinhões torrados, alface, maionese e um tempero de sumo de limão.
O alentejano nem precisou de dizer nada, o olhar desgostoso traíu-o. O inglês incorrera no mesmo erro do amigo.
À noite, foram os dois comer ao restaurante. Cada um comeu do que gostou.
Em tempo, notícia do Correio da Manhã:
Para o presidente norte-americano, George W. Bush, não há dúvidas. As eleições legislativas realizadas quinta-feira no Iraque são um exemplo importante para os regimes do Irão e da Síria, no sentido em que representam um passo em frente rumo à democracia.
E mais um passo para a divisão do Iraque em 3 países... Aumentando o caos no Médio Oriente, exactamente como os EUA queriam. Ou não?
Afixado por: Rui Martins em dezembro 17, 2005 03:30 PMJulgo que os EUA não são esquisitos. Contentam-se com o que melhor lhes servir. Democracia?!
Afixado por: ACarvalho em dezembro 17, 2005 08:05 PM