abril 27, 2006

Até ausente soube cercar a terra inteira

Faz hoje anos que Fernão de Magalhães foi assassinado nas Filipinas por um grupo de indígenas, já depois de ter ligado os oceanos Atlântico e Pacífico, atravessando o estreito que recebeu o seu nome. Se até o New York Times recorda, na edição de hoje, essa efeméride, com maioria de razões o fazemos nós. Aqui fica o poema que Pessoa lhe dedica, na Mensagem.

FERNÃO DE MAGALHÃES

No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto -
Cingi-lo, dos homens, o primeiro -,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

Fernando Pessoa, Mensagem

Publicado por ACarvalho em 09:04 PM | Comentários (339)

abril 26, 2006

Vigésimo aniversário

Vinte anos depois do desastre de Chernobyl.


Monumento que homenageia aqueles que, em regra, vão na frente: os bombeiros.

Publicado por ACarvalho em 01:22 PM | Comentários (2)

abril 25, 2006

Festejar o quê?

Recuso festejar o 25 de Abril se os festejos não mo devolverem. Não posso recordar uma efeméride com o espírito evocativo de uma vaga lembrança. Isto não é futebol. O meu clube já não me dá alegrias. O 25 de Abril também não me devolveu o sonho que sonhei. E não posso olhá-lho como a uma alegria breve.

Por uma questão de respeito por aqueles que, por ele, arriscaram a pele: eu nunca teria tido a coragem e o desprendimento que eles ousaram - estava demasiado agarrado à segurança(?) dos meus dois contos e quinhentos e ao conforto da minha família. Inclino-me perante a sua audácia. E homenageio-os... não festejando. É o mínimo que posso fazer.

Há para aí alguém disposto a novo desafio? Não há pois não? Era o que eu pensava!

Fico-me pela evocação de Tchaikovski que também nasceu num 25 de Abril.

Publicado por ACarvalho em 10:57 AM | Comentários (2)

abril 24, 2006

Não se prepararam!

Num "post" que publiquei em 6 de Fevereiro dava conta que médicos de todo o País, reunidos no Hospital de Santa Maria confessam não saber como lidar com a gripe das aves, se aparecer um caso suspeito. Desconhecem “como confirmar o vírus, quais os procedimentos para o isolamento de um infectado ou qual a calendarização para a toma do oseltamivir”... Graça Freitas, subdirectora-geral de saúde, descansa o pagode: está tudo sob controle, ainda não divulgámos os procedimentos para não alarmar, se isso acontecer, as determinações percorrerão o caminho certo, no momento exacto.... Presente na reunião, Graça Freitas, teve de transmitir aos médicos que tudo está equacionado, desde a contingentação aos procedimentos hospitalares. Contudo, o argumento "alarmista" como justificação da ausência de normas parece uma desculpa arranjada à pressa de quem foi apanhada de surpresa e não tem nada preparado. Isto foi o que escrevi.

A avaliação da semana passada que coloca Portugal na cauda do pelotão da eficácia, na luta contra uma pandemia mostra que eu tinha razão. Graça Freitas contesta o quê? Diz que "não nos revemos no estudo... que o estudo é genérico... que não corresponde à realidade". Mas não deixa de referir, sem que lho tenham perguntado, que o mesmo estudo refere o "site" português sobre a gripe como o mais bem elaborado. Somos bons a fazer "sites"? Magnífico! Contudo, esta do "site" não passa, para mim, de uma nota de amenidade com que os senhores da comissão de avaliação quiseram aligeirar o discurso. De facto, ele é tão penalizador que tinha de ser adocicado. Como aquele professor que diz ao aluno: "não desanimes, é verdade que tens problemas com o português, a matemática, as ciências, a história e as línguas estrangeiras, mas fazes uns excelentes remates à baliza."

Publicado por ACarvalho em 02:35 PM | Comentários (0)

abril 21, 2006

A moda dos "totós"

Vejo à venda, por todo o lado, a colecção baseada no conceito "anything for dummies" que é posta à venda em Portugal substituindo o "dummies" pelo (mais que duvidoso) "totós". Ele é "COMPRAS ON-LINE PARA TOTÓS", "TÉCNICAS DE VENDA PARA TOTÓS", "PROGRAMAÇÃO PARA TOTÓS", etc, etc.

"Totó" é a versão pós-moderna de "nabo", uma espécie de rótulo licoroso e medianamente perfumado do velho conceito de "burro", agora em desuso, julgo eu que por uma questão de elementar justiça (para o animal, evidentemente).

Ora, eu não acredito numa técnica de venda que promova o comprador a tanso. Porque tansos são sempre (e só) aqueles a quem chamamos tansos, o que, automaticamente, nos exclui. Se me excluo, não compro o livro; mas se tiver de comprar, procuro uma edição que não se destine a "totós".

Já dizia Shaw: cria um sistema que até um idiota pode usar e apenas um idiota vai querer usá-lo.

Publicado por ACarvalho em 01:13 PM | Comentários (7)

abril 19, 2006

O que falta?

Imagine-se gestor num importante banco. Um dia, o administrador chama-o ao gabinete e dirige-se-lhe neste tom: "Benevides, você é esforçado, minucioso e quase não tem vida pessoal por causa do seu trabalho..."

Você comenta, num sussuro, com os seus botões: "Lá vem promoção. Já não era sem tempo!"

-Mas, Benevides - continua o Chefe - onde estão os resultados? Esta Casa vive de números, tenha paciência, amanhã vai para o balcão atender clientes. Já tenho uma solução para o seu lugar.

Eficácia é a palavra-chave. Não há profissional, seja ele treinador de futebol, atleta de alta competição, gestor, educador, governante, o que quer que seja, que subsista à falta de eficácia. Os resultados avaliarão o desempenho. RESULTADOS!

Portugal tem visto desfilar pelas "passerellles" de São Bento, nos últimos 33 anos, uns quantos Homens-Bons e bastantes esforçados funcionários (claro que também existe uma legião de "tropa fandanga" mais preocupada com o nó da gravata, o corte do fato, ou o currículo do que com a pasta que lhes coube em sorte. Aceitam, alegremente, o "sacrifício", em nome da Pátria. Por cada um que hesita há cem dispostos a avançar. Mas não falo agora destes).

Infelizmente (ou talvez não), Portugal não é um banco e possui, no grupo dos esforçados funcionários, demasiados "benevides" em lugares-chave da administração pública e em lugares do governo. Alguns deles até possuem as outras virtudes fundamentais: empenho, rigor, capacidade de sofrimento.

Falham na eficácia porque não estão preparados. Invariavelmente, a perna mais importante de uma mesa de três pernas é... a que está em falta.

As universidades de Coimbra, Évora, Fernando Pessoa, Lusófona e do Algarve ofereceram-se, voluntariamente, para serem alvo de avaliação internacional. Louve-se o gesto. Os seus responsáveis sabem que é urgente mandar todos os "benevides" para o balcão!

Publicado por ACarvalho em 07:21 PM | Comentários (0)

abril 18, 2006

O que perdemos sem este PS?

Não perdemos nada. Um país sem este PS é como um país sem este PS, na perspectiva de Vique: um homem sem religião é como um peixe sem bicicleta. Acredito mesmo que é mais difícil a um peixe sobreviver sem bicicleta que um país sem este PS. Ao contrário, é mais útil, para um peixe, possuir uma bicicleta que, para um país, encontrar utilidade nas medidas destes governantes. Como são então estes governantes? Exactamente iguais aos anteriores cujos méritos tudo devem ao préstimo. Uns e outros nem sequer são como o Melhoral porque este, não fazendo bem, também não faz mal. Também não cabem na imagem de Eça sobre nódoas e benzina. Qual é o seu principal defeito? É a mania muito "in" de tomar decisões. Porque cada uma é pior que a anterior.

Não mexam, não falem, não alvitrem. Por amor de Deus, párem de "salvar" Portugal! Quanto aos portugueses, sigam esta sugestão tipo Murphy: comam uma lesma em jejum e nada de pior ocorrerá no resto do dia.

Publicado por ACarvalho em 03:59 PM | Comentários (0)

abril 17, 2006

optimismo alegrete

A sociedade portuguesa desmorona-se enquanto os políticos se digladiam alegremente, na disputa dos bocados sobrantes da "estrefega".

Alguns (poucos) amigos meus continuam convencidos que tudo vai melhorar. Sobretudo porque um certo partido, instalado no Poder, se chama PS.

Olho-os estranhamente e pergunto "se todos, ao redor, já perderam a cabeça... não serão vocês que estão entendendo tudo mal?" Que não, respondem-me, a solução para os problemas vai (forçosamente) chegar.

Respondo-lhes, citando Sevareid: Com tais governantes, a principal causa dos problemas são mesmo as soluções.

Publicado por ACarvalho em 08:08 PM | Comentários (0)

Desobediência: virtude original do homem

Não obedeças cegamente, em nome de ideias incertas. Questiona as indicações que te derem, em nome da tua própria sanidade. Se delas discordares, desobedece. Tem mais valor aquele que perde a liberdade, em nome de princípios, que aqueloutro que descarta princípios em nome de uma liberdade mortificada. É mais livre o primeiro.

E se te ordenarem que, em nome de um bem duvidoso, vergues a cerviz, não o faças.

Não aceites tudo o que te dizem para te tirarem o emprego; para te sonegarem direitos; ou para pagares mais impostos.

Provoca! Iguala o que de mais trauliteiro existe neles! Confunde-os! Sai à rua! Fá-los cair! DESOBEDECE com estilo!

No momento em que, como leitor e como escriba, desacelero a minha participação "blogosférica" (dois anos e meio de irados desabafos que não foram suficientes para esvaziar amarguras), lê o que, sobre a desobediência, escreveu alguém mais qualificado que eu.

Desobediência: Virtude Original do Homem

Oscar Wilde

Pode-se até admitir que os pobres tenham virtudes, mas elas devem ser lamentadas. Muitas vezes ouvimos que os pobres são gratos à caridade. Alguns o são, sem dúvida, mas os melhores entre eles jamais o serão. São ingratos, descontentes, desobedientes e rebeldes - e têm razão. Consideram que a caridade é uma forma inadequada e ridícula de restituição parcial, uma esmola, geralmente acompanhada de uma tentativa impertinente, por parte do doador, de tiranizar a vida de quem a recebe. Por que deveriam sentir gratidão pelas migalhas que caem da mesa dos ricos? Eles deveriam estar sentados nela e agora começam a percebê-lo. Quanto ao descontentamento, qualquer homem que não se sentisse descontente com o péssimo ambiente e o baixo nível de vida que lhe são reservados seria realmente muito estúpido.

Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem. O progresso é uma conseqüência da desobediência e da rebelião. Muitas vezes elogiamos os pobres por serem econômicos. Mas recomendar aos pobres que poupem é algo grotesco e insultante. Seria como aconselhar um homem que está morrendo de fome a comer menos; um trabalhador urbano ou rural que poupasse seria totalmente imoral. Nenhum homem deveria estar sempre pronto a mostrar que consegue viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, roubar ou fazer greve - o que para muitos é uma forma de roubo.

Quanto à mendicância, é muito mais seguro mendigar do que roubar, mas é melhor roubar do que mendigar. Não! Um pobre que é ingrato, descontente, rebelde e que se recusa a poupar terá, provavelmente, uma verdadeira personalidade e uma grande riqueza interior. De qualquer forma, ele representará uma saudável forma de protesto. Quanto aos pobres virtuosos, devemos ter pena deles mas jamais admirá-los. Eles entraram num acordo particular com o inimigo e venderam os seus direitos por um preço muito baixo. Devem ser também extraordinariamente estúpidos. Posso entender um homem que aceita as leis que protegem a propriedade privada e admita que ela seja acumulada enquanto for capaz de realizar alguma forma de atividade intelectual sob tais condições. Mas não consigo entender como alguém que tem uma vida medonha graças a essas leis possa ainda concordar com a sua continuidade.

Entretanto, a explicação não é difícil, pelo contrário. A miséria e a pobreza são de tal modo degradantes e exercem um efeito tão paralisante sobre a natureza humana que nenhuma classe consegue realmente ter consciência do seu próprio sofrimento. É preciso que outras pessoas venham apontá-lo e mesmo assim muitas vezes não acreditam nelas. O que os patrões dizem sobre os agitadores é totalmente verdadeiro. Os agitadores são um bando de pessoas intrometidas que se infiltram num determinado segmento da comunidade totalmente satisfeito com a situação em que vivem e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são necessários. Sem eles, em nosso estado imperfeito, a civilização não avançaria. A abolição da escravatura na América não foi uma conseqüência da ação direta dos escravos nem uma expressão do seu desejo de liberdade. A escravidão foi abolida graças a conduta totalmente ilegal de agitadores vindos de Boston e de outros lugares, que não eram escravos, não tinham escravos nem qualquer relação direta com o problema. Foram eles, sem dúvida, que começaram tudo. É curioso lembrar que dos próprios escravos eles recebiam pouquíssima ajuda material e quase nenhuma solidariedade. E quando a guerra terminou e os escravos descobriram que estavam livres, tão livres que podiam até morrer de fome livremente, muitos lamentaram amargamente a nova situação. Para o pensador, o fato mais trágico da revolução francesa não foi o de que Maria Antonieta tenha sido morta por ser rainha, mas que os camponeses famintos da Vendée tivessem concordado em morrer defendendo a causa do feudalismo.


Extraído da Obra "A Alma do Homem Sob o Socialismo", de 1891

Publicado por ACarvalho em 12:44 PM | Comentários (0)

abril 13, 2006

Boa Páscoa

Em www.gifs.net

Publicado por ACarvalho em 01:23 PM | Comentários (0)

abril 11, 2006

Cenários

Apenas um cenário (uma hipótese académica)

O Ministério das Obras Públicas decidiu, pressionado por associações patronais do sector, no âmbito da construção de estruturas para um grande evento a realizar em Portugal, encurtar as férias dos trabalhadores da construção civil para 7 dias úteis, no verão que antecede a realização do certame, na sequência de um estudo efectuado que apontava para a impossibilidade técnica de terminar os trabalhos em tempo útil.

José Fortunato Bexiga Elegante, trolha na empresa que adjudicou os trabalhos, solicitou ao Ministério uma cópia do estudo em causa, para poder analisar. Não obteve resposta.

O trolha, persistente, faz seguir uma queixa para a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos. Esta comissão encontra na queixa a maior pertinência e solicita ao governo que faculte o estudo ao trabalhador.

Como as diligências da comissão não são vinculativas, e na expectativa de não ver satisfeita a sua pretensão, o trolha Elegante já tem na calha um processo judicial de intimação para entrega de documentos que accionará, de imediato, mal tenha conhecimento da eventual sonegação do documento.

Perguntas: teria alguma vez o trolha uma hipótese, mínima que fosse, de sair vitorioso desta peleja? Se a resposta for não, em que passo do processo é que emperraria a "coisa"? Terminaria todas as diligências antes de ser despedido? Que diferenças há entre um trolha e um juiz? Poderá um juiz, qualquer juiz, ser tão pressuroso e eficaz na resolução dos processos com que se barra, por trás de uma secretária, como este o foi na luta pelos seus DOIS MESES de férias? Vivemos numa timocracia de juizes?

Publicado por ACarvalho em 10:07 PM | Comentários (0)

abril 10, 2006

Estão muito preocupados!

Um grupo de trabalho do M. das Finanças tem labutado duramente na reavaliação dos benefícios fiscais. Acho que queriam encontrar novas plataformas de benefícios. Segundo fontes bem informadas, não conseguiram encontrar nenhuma. Para não se dizer que não fizeram nada, olha, aproveitaram e toca a cortar, é muito mais fácil, a populaça "marguça" o focinho e acata, não pode fazer nada e, aqui para nós, às vezes até merece.

As poupanças-reformados vão, pois... reformar-se. Razões aduzidas:

-os efeitos daquele benefício são muito reduzidos (comentário: sério!?);

-falta de recursos da Administração Tributária, sem condições para uma fiscalização eficaz (comentário: metam a tropa, ponham esta gente na linha!);

-Quem tem uma pensão baixa não consegue fazer poupança.

Comentário:

Ah! Ah!

AH! AH!

AH! AH! AH!

Publicado por ACarvalho em 07:02 PM | Comentários (0)

O tempo que conta

Há dias, encontrei-me com um grupo de amigos, num almoço a que faço questão de sempre comparecer, mau grado a distância.

Invariavelmente, surpreendemo-nos com o tempo que medeia entre acontecimentos antigos e recentes. Já faz nove anos que iniciámos, eu, o Júlio e o Zé Alberto, um complemento de formação no ESEAG. Olhando distraidamente para trás, dir-se-ia que apenas um, no máximo dois, com alguma boa vontade... três anos se passaram. Que é feito dos outros?

A resposta é simples: perderam-se, diluíram-se, esfumaram-se devido à proverbial incapacidade dos adultos para cativar o tempo, bebendo cada segundo. Um caso típico de dissipação sistemática do bem mais tragicamente perecível que possuímos. E se não formos capazes de ultrapassar as peias que nos impedem de voar por sobre o prazo de validade dos nossos restos, então o caso é duplamente trágico, como apontou, judiciosamente, Kierkegaard.

Nesta, como noutras matérias, são as crianças que possuem o segredo, a magia que agarra o tempo e o segura, como um brinquedo que dura a eternidade dos primeiros anos.

No dia em que damos por nós a filosofar sobre a brevidade da vida, da sua fugacidade sem remissão... olhamo-nos ao espelho e descobrimos que estamos velhos.

Não é forçoso que seja assim. Possuímos a capacidade de viver 300 anos por vida. Basta não desistir de ser criança. Consegui-lo, é dispensar Kierkegaard e os desesperos que agita.

Publicado por ACarvalho em 01:29 PM | Comentários (0)

abril 08, 2006

Nos 33 anos da morte de Picasso (feitos hoje)


Os três músicos

Publicado por ACarvalho em 08:07 PM | Comentários (1)

abril 07, 2006

A relatividade do juizo

Ando a ler AS MEMÓRIAS DE ADRIANO, de Margueritte Yourcenar. A dado trecho, Adriano lamenta o comportamento dos sármatas que queimam os prisioneiros, ainda vivos; já ele, Adriano, limita-se a degolá-los. A ética subjacente a este juizo é de uma relatividade surpreendente. Hoje, o teor de relatividade que adorna os conceitos acentuou-se ainda mais. E de tal forma que, para além de domínios como a semântica, onde sempre reinou, entra com tudo na epistemologia, ciência dada a acabar com toda a espécie de... relativismos e confusões.

No que respeita à semântica, considere o significante "porra". No espaço de 3 gerações, é despromovido de substantivo a interjeição, ao nível dos inocentes "irra", "apre", "eia" e do (um pouco menos inocente) "chiça". Mais, nas mesmas três gerações, vulgariza-se, adocica o significado e democratiza-se ao ponto de não chocar ninguém ouvi-la da boca de uma senhora (julgo que no Brasil as coisas não aconteceram tão depressa e o significado se mantém pesadote). Que diria Bocage?

Não me choca muito, ou não me choca tanto como o abandalhamento da semântica dos actos. E foi por isto que me pus a discorrer, há dois parágrafos atrás. Falo do nepotismo, do empreguismo e clientelismo, na ocupação de cargos na administração pública. Mas já lá vou. Não há muitos anos, um homem hipotecava as barbas e respondia por elas; retorquia a um insulto com um duelo de sangue; no séc. XIX, ainda se prendiam os adúlteros; era eu adolescente, um homem foi condenado a uma pena de quatro anos de prisão porque planeou e consumou o assassinato (qualificadíssimo) da mulher e do amante.

E hoje? Algumas pessoas acusadas de corrupção riem, deslavadas, à porta dos tribunais. Autarcas sob o peso da suspeita de negócios escuros voltam a candidatar-se aos lugares onde, supostamente, praticaram os crimes de que são acusados. Escudam-se na certeza da dúvida: mesmo que venham a ser condenados, afirmar-se-ão (convictamente) inocentes. E haverá sempre margem para alguma insegurança: "será que o homem é mesmo culpado?" É uma atitude que traz dividendos, esta espécie de frentismo voluntarista e amoral, veja-se a facilidade com que recuperaram os cargos públicos em Felgueiras, Oeiras e Gondomar os três acusados que todos conhecemos. E não falo do futebol, ainda não ouvi ninguém reconhecer-se culpado de tráfico de influências ou corrupção activa. Podem estar todos inocentes. Há pouco menos de cinco décadas, homens injustamente acusados suicidavam-se por não suportarem o peso da suspeita.

Terminemos, então, ilustrando uma situação de nepotismo (onde o aviltamento da semântica dos actos mais mexe comigo). Imagine um jovem licenciado, à procura de primeiro emprego. Vê um anúncio num jornal e acha que é mesmo aquilo que sempre procurou. É numa Câmara. Vive a 200 km mas não faz mal, se ganhar o concurso muda-se, de armas e bagagens, à procura do sonho. Escreve o currículo com todo o cuidado mais a carta de apresentação, envia tudo pelo correio e fica à espera. Algum tempo depois, chamam-no para uma entrevista. Enche o depósito do carro com aquele líquido que tem a cor (e o preço) do ouro, mete rodas ao caminho,chega cedo, almoça no tasco ao lado do edifício autárquico e percebe que há por ali outros candidatos. São todos da região, já não se metem em grandes aventuras, as viagens estão caras. E depois, pasme-se, todos já conhecem o nome do feliz novo funcionário da CM. É um rapaz que já colabora com a autarquia há uns bons meses. À entrevista, continuam todos a ir. Para praticar, para se mostrarem. Têm esperanças (nunca se sabe) de um dia, o País onde nasceram ser liderado por homens mais sérios. Ou de terem, também eles, a sua oportunidade de empreguismo.

Os sármatas assavam os prisioneiros ainda vivos; Adriano, degolava-os; os chefes de Portugal fazem ainda melhor: cozem os jovens em lume brando e recusam-lhes a esperança.

Publicado por ACarvalho em 07:23 PM | Comentários (0)

abril 06, 2006

A Nossa Palavra

Acabam de me chegar às mãos, via correio, os primeiros números do jornal A Nossa Palavra do Agrupamento de Escolas Ribeiro de Carvalho.

Ao Presidente do Conselho Executivo, Dr. José Alberto Alves de Sousa, meu querido amigo de longos anos e honrados labores, deixo o meu agradecimento.

Com o inestimável apoio do Programa Polis do Cacém, o jornal veicula informação, entusiasmo, unidade, cultura, dinamismo e diversão. Faço votos para que tenha a divulgação que merece.

Um abraço

Publicado por ACarvalho em 03:25 PM | Comentários (0)

20% de (aparente) optimismo

Olha se os portugueses fossem tão pessimistas como se apregoa... Vinte por cento (sim, 20%) dos inquiridos numa sondagem acreditam que vão ter uma vida melhor, nos próximos 365 dias.

Optimismo congénito? Não, nós somos o país do fado, da má sina, dos fatalismos predestinados. Então...? Como se justificam estes números? Inconsciência? Loucura? Já atingimos o zénite da parvoíce e flutuamos sobre a realidade?

Nada disso, continuamos como sempre fomos: tristes, indiferentes, sem esperança, vergados à estrofe do xale negro. A verdade é esta: em cada cem pessoas inquiridas, vinte já desceram, em vertiginosos trambolhão, todos os degraus da escada onde viveram, "tem-te não caias", durante algum tempo. Foram direitinhas à cave e não há mais por onde cair. Para estes, a vida só pode melhorar, daí o aparente optimismo. Sem dinheiro para a prestação do carro ou da casa, com uma execução fiscal publicada no jornal da terra, sem emprego, mulher doméstica, filhos na escola, expliquem lá a esta gente que tudo isto é a (pequena, ainda que detalhada) factura da suprema felicidade de pertencer à Europa, estar no grupo que partilha os destinos do planeta.

Perguntem, olhos nos olhos, a uma destas pessoas: "Não estás orgulhoso, pá?" Se o virem vacilar, dêem-lhe uma palmada nas costas e levem-no a beber um copo. Se, por entre os "engelhos" de testa e rugas de expressão, descortinarem um arremedo de orgulhoso sorriso por se sentir embarcado no pelotão da frente, então, nem um copo merece. É burro mesmo, não há nada a fazer.

Se as coisas não melhorarem, daqui por algum tempo, os vinte por cento de "optimistas" vão crescer até ao patamar da patetice... mas só para quem não os entende.

Publicado por ACarvalho em 10:03 AM | Comentários (0)

abril 05, 2006

Filhos de um deus menor

O lamento personalizado do Papa pela morte do menino italiano, no decurso de um sequestro, torna ainda mais pungente o drama da morte calada de milhões de crianças, por esse Mundo fora.

Qualquer padre de missão sabe que não há espaço nem tempo para lamentos personalizados. As suas crianças vivem muito longe do Vaticano. E o deus a que têm direito é um deus menor.

O Tommaso foi assassinado. Guardo o silêncio respeitoso que devo (devemos todos) a todos os tommasos anónimos, brancos, pretos, amarelos ou vermelhos que diariamente morrem às mãos do seu Alessi particular.

Quem explica a Bento XVI que não iria ter tempo para conceder a todos um lamento personalizado?

Publicado por ACarvalho em 02:34 PM | Comentários (2)

abril 03, 2006

Almoço

Os três mosqueteiros eram quatro; os nove planetas do sistema solar, afinal são dez; os três por cento do défice público são... mais de seis.

E estes Sete Magníficos também não são, exactamente, sete. São eles... e o que eles encerram: entre todos, duzentos e cinquenta anos ao serviço da educação; mais de mil alunos; muito trabalho docente; muito investimento pessoal. São eles e a sua circunstância: a de, num certo momento das suas vidas, terem decidido ser professores. A foto, essa, mostra o que sobrou.

Para eles, aqui fica um poema (também circunstancial) de Eugénio de Andrade:

Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim


o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, a até
alguma coisa dissipou, o pobre,


pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela


que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.

Publicado por ACarvalho em 11:22 PM | Comentários (213)