março 30, 2006

É comigo?

Acabei de ouvir da boca do Ministro das Finanças, via RTP1, em directo com Judite de Sousa, que "os portugueses se têm esforçado pouco". Senti-me apanhado e encabulado. Até corei. Não havia mais ninguém na sala, para além de nós três (eu, a Judite e o Teixeira). Ainda tive esperança que a Juditinha balbuciasse um protesto, um simples "mas", tímido que fosse. Nada! Apaguei a TV e saí da sala, esmagado pelo peso do opróbrio.

Publicado por ACarvalho em 09:52 PM | Comentários (482)

Uma preciosidade

Obrigado, meu caro Chitas!

Publicado por ACarvalho em 09:38 PM | Comentários (638)

março 29, 2006

Centro de Emprego, em Évora

Em Évora, o Centro de Emprego oferece aos filhos dos utentes uma mesa onde podem ficar algum tempo enquanto as mães ou os pais não são atendidos: um quadro mágico, livros da Anita, uma locomotiva em madeira e um "carocha" de lata constituem a oferta desta proto-ludoteca. O IEFP até pode não reconhecer que só dá trabalho aos próprios funcionários; mas dá o flanco quanto ao tempo de espera dos utentes.

Sugestão: existe, mesmo ao lado, um gabinete que vejo quase sempre vazio e de luzes apagadas. Que tal, ocupá-lo com uma maior variedade de jogos e brinquedos e contratar uma animadora? Sempre era mais um posto de trabalho.

Publicado por ACarvalho em 04:40 PM | Comentários (818)

Por acaso

Por acaso, encontrei, esta manhã, na rua, o poeta popular José Florêncio. Trocámos um bom pedaço de saborosa conversa, comprei o seu livro e ganhei um autógrafo que guardarei atá ao fim da minha vida. No fim, despediu-se com um "obrigado pela compra do livro mas o que mais lhe agradeço é a atenção que me dispensou".

Noventa e cinco anos de sabedoria e versos, o Almocreve das Rimas vale, em dobro, a melhor das lições de vida.

Aqui deixo as palavras com que prefacia o seu "1001 QUADRAS":

"Dado o conhecimento em que me tenho encontrado, e me estou encontrando é como quem diz, quem fala verdade não merece castigo.

Eu nasci no Alentejo
Em mil novecentos e dés
Como nasci pobrezinho
Passei a vida aos pontapés.

Pois, como tal e continuando, lembra-me quando tinha dois ou três anos, eu e os meus irmãos, ficarmos trancados em casa para a minha mãe ir lavar a roupa que trazíamos vestida e esperarmos que ela secasse para então a vestirmos. Pois, como esta e outras mais, eu quero explicar mais adiante no meu livro, o qual eu gostava de poder chamar "O Livro da Verdade". "O Livro da Verdade" porquê? Porque algumas parecem mentiras mas não são. E não são porquê? Porque eu sou o testemunho de tudo o que aqui digo.

De tudo que eu sofri
Lembrar-me disso é asneira
O melhor é esquecer-me
Mas esquecer-me de que maneira?

Poi, continuando, como mais adiante vou explicar melhor, eu comecei a sair da minha casa com seis anos de idade, não para ir à escola mas para ir guardar perús, claro, para meter na boca uma côdea qualquer, porque na minha casa, quando havia alguma sardinha, era dividida por alguns.
Já agora, de muitas, vá só mais esta. A farinha para a minha mãe fazer o pão para os filhos comerem era transportada no carro de parelha, isto é, um carro conduzido por dois animais, duas mulas ou dois machos, e o mesmo carro transportava também uma lata com vinte litros de petróleo. Por descuido, a lata derramou petróleo pela farinha fora, e agora? Agora fabrica-se o pão e come-se assim!
Eu sou José Florêncio e desejo que os meus amigos nunca comam pão com este tempero; isto foi aproximado a 1915.
Pois, como já disse algumas vezes, e mais adiante vou dizer mais algumas, até me dá vergonha, mas como a verdade é para se dizer, então vamos a esta
".


E esta verdade a que o poeta se refere é o livro, esmiuçadinho em sageza e verso, que vou passar a tarde a ler.

Publicado por ACarvalho em 02:44 PM | Comentários (311)

março 28, 2006

Motivações

Interrogo-me muitas vezes sobre a excessiva emoção que os portugueses põem num jogo de futebol e o interesse por novelas e "reality shows". Às vezes acho que toda aquela energia e adrenalina, dirigidos a outras causas e interesses chegaria e sobrava para fazer de Portugal um grande e próspero país.

Isto, sou eu a pensar. Porque quando dou por líderes que são, ou foram, responsáveis pela governação em Portugal, clamando pela falta de consciência cívica dos "tugas", aí, também eu fico logo com vontade de ir "à bola", sequioso das emoções de um estádio cheio ou da fantasia de uma história, um filme, um romance, enfim, algo que nos faça sonhar um pouco, como na canção dos Trovante. Só descarto claramente o reality show, nem me dou ao trabalho de explicar porquê.

Os portugueses vivem sem esperança. Quando, olhando a TV, vêem um ministro aprumar a gravata e endireitar os papéis do discurso, sabem que vai chover da "grossa", não há margem senão para medir os estragos. Encolhem os ombros e, na eventualidade de uns parcos trocos, vão ao futebol; se não, vão ao café ver a Sporttv, pelo preço da "bica". As mulheres, essas, pelas mesmíssimas razões (mais as sobrantes de motivos que não vêm ao caso) mergulham na história da novela, enfronham-se nela, vivem dela, como o Sebastian do "Neverending Story".

Ninguém vive sem um pouco de fantasia. O futebol não traz nada à vida das pessoas mas cria nelas a ilusão de um momento de felicidade que se prolonga por umas horas. Eis algo que não tem preço e substitui, com vantagens e menos efeitos secundários, o lítio e o prozac. Se o "nosso" clube perder, o que é que tem? Não é nada a que não estejamos habituados: perder, perder, perder, é a vida dos "Bravos Cavaleiros do Sol-Posto".

Até que apareça gente que apele menos à consciência cívica e nos dê maiores motivos para exercitar o grande zigomático, VAMOS TODOS À BOLA!

FORÇA BENFICA!!

Publicado por ACarvalho em 07:08 PM | Comentários (552)

março 27, 2006

Fecha tudo

Sócrates justifica fecho de escolas e maternidades

Em nome da qualidade e segurança.


As crianças vão ser transferidas em nome da qualidade. Para que possam "ter as mesmas possibilidades que têm as outras crianças, pô-las em escolas melhores". Pois, pois, chamem-lhe o que quiserem, mas não invoquem, em vão, o sacro-interesse da criança (que não tem nada a ver com os cortes nas despesas e a racionalizaçãozinha marota, recurso fatal das soluções neo-liberais que nos hão-de alinhar, a todos, muito certinhos, na plateia do reality show que eles protagonizam, com os proveitos do costume.)

Já "os blocos de partos que vão encerrar não estão em condições de funcionar porque não cumprem os 'standards' internacionais", seja lá isso o que for (espero que não se refira aos standards do Burkina Faso, da Etiópia, de Moçambique... e que os luso-espanholitos da raia, esses mutantes transnacionais, aprendam a cantar A Portuguesa, em português.)

Publicado por ACarvalho em 01:04 PM | Comentários (10)

JN

Segundo o JN, aumenta-se, em 36%, verba para deficientes.

Espera-se que, a partir de agora, passem a governar melhor.

Publicado por ACarvalho em 12:34 PM | Comentários (1)

março 24, 2006

Árvores do Alentejo

(E um bom fim-de-semana)

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

Publicado por ACarvalho em 09:43 PM | Comentários (0)

Está a tornar-se um hábito

Um título no DN Online dá-nos conta de que

"O PS AVANÇA COM ABORTO A 15 DE SETEMBRO".

Não me parece uma notícia merecedora de destaque. Desde que formou governo e ganhou maioria parlamentar, o PS já avançou com vários abortos. É apenas mais um. Está a tornar-se um hábito!

Publicado por ACarvalho em 05:39 PM | Comentários (0)

Subsídio de desemprego

Parece que o governo vai deixar cair aquela ideia peregrina de obrigar os subsidiados a permanecer em casa 2 horas por dia. A ideia era gira e tinha valor pedagógico e punitivo. Desempregado? Toma! Duas horas diárias de castigo. Não sei se com recurso ou não à pulseira electrónica, mas agora também já não vale a pena pôr-me a discorrer.

Parece que houve um senhor com uma ideia melhor e de sinal contrário: a solução reside, não em mantê-los fechados, mas em mandá-los para a rua, à procura de trabalho. De 15 em 15 dias, apresentam-se no Centro de Emprego(?) com comprovativos da busca efectuada. Em cada quinzena, terá o desocupado de realizar, pelo menos, uma diligência e pedir um documento à entidade empregadora(?). Não foi aceite? Não faz mal, ali está a pagela mágica a garantir mais 15 dias de subsídio.

A eficácia disto reside na ideia de, muito rapidamente, o desempregado esgotar as opções de busca. Se vive em Évora e for licenciado em antropologia, onde desencantará uma oferta quinzenal? Nem em todo o território, de Melgaço a Faro, de Lisboa a Olivença, há uma oportunidade bi-mensal para trabalhar no ramo. Sem a papeleta, adeus subsídio. É rápido, eficaz e, se não soasse a irónico, diria indolor. Sem o parco recurso, o licenciado vai ter de se virar. Como não pode repetir abordagens já efectuadas, terá de dar corda à imaginação. Senta-se ao computador e redige um documento:

-------------------------------------------------Declaração-------------------------------------------------
Eu, Fulano de Tal, Director de Recursos Humanos da Firma Tal e Tal, Lda, declaro que não existe, no quadro de pessoal da empresa, nenhuma vaga por preencher. Por ser verdade, e por nos ter sido pedido, se passa a presente declaração, solicitada pelo senhor Cicrano da Silva, desempregado.

Faz um périplo pelas empresas da área e tenta convencê-los a preencher os campos da declaração. Carimbo, assinatura, já está. Qualquer empresa serve, construção civil, serviços de limpeza, bancos, escolas, etc. Dica: vá à Câmara Municipal que poupa muitos passos; leve impressos para cantoneiro, electricista, pedreiro, calceteiro, educador de infância, escriturário, etc. Fica com comprovativos para, pelo menos, um ano.

Não era precisa tanta subtileza. Acabam-se os subsídios de desemprego, ponto. Para os desempregados, o IEFP deixa de representar Emprego e Formação profissional. Promovido a entidade fiscalizadora, vai deixar de ser visto com olhos de esperança e passar a ser olhado com desconfiança. Um novo significado para a sigla: Instituto de Encaixes por Fugas à Procura.

Publicado por ACarvalho em 02:48 PM | Comentários (3)

março 23, 2006

Os funcionários da Conservatória do Registo Civil de Évora

Já tinha reparado. Agora voltou a acontecer. As funcionárias da Conservatória do Registo Civil de Évora são eficientes como poucas. E estou a falar a sério, sem a mais pequena ponta de ironia.

Não fazem mais que a sua obrigação? Pois não. Mas se vos disser que temperam a eficácia com simpatia e vontade de ajudar aí, alto, a coisa melhora claramente, estamos no país do "faz pior que é melhor", olha-se de lado para quem tenta fazer bem, cola-se-lhe o labéu de lambe-botas, o melhor é marginalizar a peça, "o gajo é ambicioso, finge que não o vês, assobia pró lado".

Conhecem o funcionário-tipo da administração pública portuguesa, cara-de-pau, rezingão, sobranceiro, superior e "grunfento" (diz-se dos funcionários que emitem "grunfs"). Sabem do que estou a falar, não?

Pois esse espécimen não mora ali. Se alguma vez houve, reformou-se, adaptou-se, evoluiu.

Não se deve agradecer aquilo a que se tem direito? Talvez seja verdade, mas há que honrar o mérito. Bem hajam.

Publicado por ACarvalho em 08:08 PM | Comentários (2)

março 22, 2006

1.º álbum

Em 1963, neste mesmo dia, era lançado o primeiro álbum dos Beatles. Os que ainda guardam, zelosamente, um exemplar da 1.ª edição (monofónica) e ainda não o emolduraram, façam-no agora. Sempre fica mais protegido. Foi há 43 anos. Antes (pouco antes), a banda já havia lançado dois "singles", um deles o "Love me Do" / "PS I Love You".

Publicado por ACarvalho em 08:40 PM | Comentários (0)

Os clarins do Apocalipse

Voltando à vaca fria dos trombeteiros de emoções (vulgo jornalistas da 3.ª geração) é costume ouvi-los justificar políticas editoriais com o interesse do público. Não sei muito bem quem é essa entidade, o público. O que sei é que não me reconheço nesse "público", não lhe pertenço. Contudo, existo. A acreditar no poder assertivo de Descartes, certamente que existo. Então? Ou há mais que uma entidade com essa designação, ou não há público senão a um nível excessivamente generalista, quase no patamar do conceito. Que eu saiba, os conceitos não vêem TV, não ouvem rádio nem lêem jornais.

Onde quero eu chegar? Quando redigem uma notícia alarmista, sem uma base sólida, com uma hipótese de realização apenas residual, os nossos escribas estão, na maioria das vezes, a escrever para si mesmos, tentando encontrar uma resposta para os próprios medos e sublimar as suas paranóias. Depois a coisa pega-se (mexe com receios ancestrais) e a paranóia ganha o estatuto de colectiva. No fundo, uma dupla recompensa para os oficiais do Quarto Poder: auto-comprazimento no exercício; e incremento das receitas que o aumento das audiências sempre traz.

O interesse do público? Se se trata de pessoas, o público agradece paz e sossego. Eu, público, encontro maiores motivos de interesse na descrição literária de uma repartição do registo civil do que numa notícia sobre a (hipotética) pandemia de gripe.

Publicado por ACarvalho em 01:33 PM | Comentários (0)

março 21, 2006

A propósito do artesão das petas

No meu post de ontem, intitulado "Artesão das Petas", destilei algum fel por sobre o incondicional apego à fidelidade ao "his master´s voice", por parte de alguns escribas de pacotilha que grassam como escalracho nos órgãos de comunicação social.

Sem querer, lembrei-me do poemeto de Guerra Junqueiro dedicado à fidelidade canina, intitulado "Fiel", não por haver analogia entre o "Fiel" e os fiéis citados, antes pelo contrário, que o cão do Guerra Junqueiro é desinteressado e altruista.

A verdade é que me lembrei e pronto.

Sob a feroz capa anticlerical, a faceta romântica incorrigível, a sensibilidade quase lamechas do poeta de "Os Simples". Aqui vai:


FIEL

Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
Havia o que quer que fosse
D’um íntimo desgosto:
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
Á busca dum jantar.
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza ossiânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas;
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada:
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor
Um boémio, um sonhador,
Encontrara na rua o solitário cão;
O artista era uma alma heróica e desgraçada,
Vivendo num escura e pobre água furtada,
Onde sobrava o génio e onde faltava o pão.
Era desses que tem o rubro amor da glória,
O grande amor fatal,
Que umas vezes conduz às pompas da vitória,
E que outras vezes leva ao quarto do hospital.

E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu,
Disse-lhe: - “O teu destino é quase igual ao meu:
Eu sou como tu és, um proletário roto,
Sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo;
E quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto,
Eu não irei achar o meu primeiro amigo!...”

No céu azul brilhava a lua etérea e calma;
E do rafeiro vil no misterioso olhar
Via-se o desespero e ânsia d’uma alma,
Que está encarcerada, e sem poder falar.
O artista soube ler naquele olhar em brasa
A eloquente mudez dum grande coração;
E disse-lhe: - “Fiel, partamos para casa:
Tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão. –“

E viveram depois assim por longos anos,
Companheiros leais, heróicos puritanos,
Dividindo igualmente as privações e as dores.
Quando o artista infeliz, exausto e miserável,
Sentia esmorecer o génio inquebrantável
Dos fortes lutadores;
Quando até lhe acudiu às vezes a lembrança
Partir com uma bala a derradeira esp’rança,
Por um ponto final no seu destino atroz;
Nesse instante do cão os olhos bons, serenos,
Murmura-lhe: - Eu sofro, e a gente sofre menos,
Quando se vê sofrer também alguém por nós. –

Mas um dia a Fortuna, a deusa milionária,
Entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente:
“Um génio como tu, vivendo como um pária,
Agrilhoado da fome à lúgubre corrente!
Eu devia fazer-te há muito esta surpresa,
Eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar;
Mas moravas tão alto! E digo-o com franqueza
Custava-me subir até ao sexto andar.
Acompanha-me; a glória há de ajoelhar-te aos pés!...”
E foi; e ao outro dia as bocas das Frinés
Abriram para ele um riso encantador;
A glória deslumbrante iluminou-lhe a vida
Como bela alvorada esplêndida, nascida
A toques de clarim e a rufos de tambor!

Era feliz. O cão
Dormia na alcatifa à borda do seu leito,
E logo de manhã vinha beijar-lhe a mão,
Ganindo com um ar alegre e satisfeito.
Mas aí! O dono ingrato, o ingrato companheiro,
Mergulhado em paixões, em gozos, em delícias,
Já pouco tolerava as festivas carícias
Do seu leal rafeiro.

Passou-se mais um tempo; o cão, o desgraçado,
Já velho e no abandono,
Muitas vezes se viu batido e castigado
Pela simples razão de acompanhar seu dono.
Como andava nojento e lhe caíra o pelo,
Por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo,
E mandava fechar-lhe a porta do salão.
Meteram-no depois num frio quarto escuro,
E davam-lhe a jantar um osso branco e duro,
Cuja carne servira aos dentes d’outro cão.

E ele era como um roto, ignóbil assassino,
Condenado à enxovia, aos ferros, às galés:
Se se punha a ganir, chorando o seu destino,
Os exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
criados brutais davam-lhe pontapés.
Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame.
Quando exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
Das moscas das gangrenas.

Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer,
Disse ”Não morrerei ainda sem o ver;
A seus pés quero dar meu último gemido...”
Meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido.
E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo,
E bradou com violência:
“Ainda por aqui o sórdido animal!
É preciso acabar com tanta impertinência,
Que esta besta está podre, e vai cheirando mal!”
E, pousando-lhe a mão cariciosamente,
Disse-lhe com um ar de muito bom amigo:
“Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente,
Ainda que te custe anda daí comigo.”

E partiram os dois. Tudo estava deserto.
A noite era sombria; o cais ficava perto;
E o velho condenado, o pobre lazarento,
Cheio de imensas mágoas
Sentiu junto de si um pressentimento
O fundo soluçar monótono das águas.

Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira
Da corrente. E o pintor,
Agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira,
Friamente cantando uma canção d’amor.

E o rafeiro sublime, impassível, sereno,
Lançava o grande olhar às negras trevas mudas
Com aquela amargura ideal do Nazareno
Recebendo na face o ósculo de Judas.
Dizia para si: “È o mesmo, pouco importa.
Cumprir o seu desejo é esse o meu dever:
Foi ele que me abriu um dia a sua porta:
Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer.”

Depois, subitamente
O artista arremessou o cão na água fria.
E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente
O gorro que trazia
Era uma saudosa, adorada lembrança
Outrora concedida
Pela mais caprichosa e mais gentil criança,
Que amara, como se ama uma só vez na vida.

E ao recolher à casa ele exclamava irado:
“E por causa do cão perdi o meu tesouro!
Andava bem melhor se o tenho envenenado!
Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro,
Dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro,
Para tornar a ver o precioso objecto,
Doce recordação daquele amor tão puro.”
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto.
Não podia dormir.
Até nascer da manhã o vivido clarão,
Sentiu bater à porta! Ergueu-se e foi abrir.
Recuou cheio de espanto: era o Fiel, o cão,
Que voltava arquejante, exânime, encharcado,
A tremer e a uivar no último estertor,

Caindo-lhe da boca, ao tombar fulminado,
O gorro do pintor!

Publicado por ACarvalho em 08:14 PM | Comentários (1)

La Primavera

Para lembrar o tempo em que as andorinhas chegavam a horas, as cegonhas se davam ao trabalho de voltar e nos despedíamos das laranjas e dos diospiros, aqui fica a exuberante celebração de Boticelli: LA PRIMAVERA.

Uma das Graças olha furtivamente para Mercúrio e, sobre o lado direito, Zéfiro sopra sobre Flora, fecundando-a. Ao alto, controlador e atento, Cupido zela para que tudo corra em conformidade. Hoje, ou os deuses se desleixaram ou foram consumidos pela voragem do Homem, como os texugos, as martas e os tourões.

Publicado por ACarvalho em 12:57 PM | Comentários (2)

março 20, 2006

Os artesãos das petas

Os serviços noticiosos dos canais de TV portugueses trabalham muitíssimo bem. Sequiosos de audiências, apostam sempre no pior: a gripe das aves tem sido glosada em todos os sinistros tons dos mais obscuros medos da populaça.

Nem nos tempos da peste negra se assistiu a tanta chinfrineira: naquele tempo, apanhados pela rapidez fulminante do mal pustulento, os homens temiam menos a morte que a falta de tempo para expiar os pecados da vida. Não fora o trabalho árduo dos frades, na distribuição a esmo da derradeira unção pelas criaturas caídas e, não sei, não sei, talvez não houvesse hoje, nas visões de Dante, espaço para uma simples alma.

Mas há. Há o espaço suficiente para (pelo menos) albergar os tipos das televisões, os "diabinhos" que todos carregamos pacientemente sobre os ombros, um local privilegiado, dada a proximidade do aparelho auditivo e dos miolos, sobretudo estes, muito dados a fácil fervura sempre que lhes sopram perto visões aterradoras e catastróficas, como sejam as crises directivas do Sporting, as derrotas do Benfica, as proezas de Bin Laden e o poder incontrolável do H5n1.

Pois o jornalista do séc. XXI, fazedor (mais do que escriba ou leitor) de notícias, arauto da desgraça, capaz de transformar um espirro numa pandemia e uma careta do José Veiga num insulto ao Pinto da Costa, é incondicionalmente fiel ao dono, como o cão do Guerra Junqueiro. Em nome dessa fidelidade, cria o estardalhaço necessário e a fumaça suficiente que lhe garanta, a ele, à ceia, uma descansada bucha; e ao dono, audiência, anunciantes e dinheiro. Para isso, mexe com tudo, inventa tudo, conta tudo, como o "bacorote honradiço" do Sá de Miranda.

Os serviços de alerta para a gripe aviária, em Portugal, recebem todos os dias, cerca de 80 telefonemas que, até à data, contabilizam outros tantos falsos alarmes. A vizinha do 2.º esquerdo, por cima do apartamento onde moro, tem uma catatua que, espanafrando as asas, me inunda a cozinha de bafienta poalha. Cedo à tentação e ligo a alguém? Acho que não. Vou sentir a falta do cheiro a feno, doce lembrança dos meus verdes começos. Não é que tivesse por hábito comer palha, mas o cheiro, esse, acompanhou-me até aos 10 anos, trazido pela brisa que varria a eira mais próxima da minha casa, lá na terra. Continuo viciado na doce exalação, o que me conforta: se um dia tiver (mesmo) de a comer - à palha, bem entendido - não será grande o sacrifício.

Publicado por ACarvalho em 03:03 PM | Comentários (3)

Modo de Ver, Modo de Dizer

E lá passámos um belo pedacinho da tarde de 5.ª feira passada, no lançamento do

MODO DE VER, MODO DE DIZER

do Manuel Branco, pontuado pela leitura de algumas das excelentes crónicas que dão forma ao livro e pelas saborosas intervenções de José Faustino (Rádio Diana), do Dr. Abílio Fernandes e do autor.

Parabéns à Cooperativa Cultural do Alentejo mas, sobretudo, ao Manel. Um grande abraço. A colheita de 46, na Igrejinha, saíu apurada! Bons barros, bons barros!

Publicado por ACarvalho em 12:30 PM | Comentários (0)

março 16, 2006

Complemento solidário

Até ontem, no distrito de Évora, foram despachadas, favoravelmente, 70 candidaturas ao complemento solidário de reforma. Uma análise a esta "fabulosa" cifra sugere-nos várias possíveis leituras:

A) Não há velhos no distrito;
B) Não há velhos carenciados no distrito;
C) Não há distrito;
D) Ninguém requer o subsídio.

A primeira leitura é facilmente refutável. Os velhos são o orgulho da região: constituem o único produto alentejano que estamos em condições de exportar, um segmento onde podemos até chegar à liderança e dominar o mercado europeu.

Quanto a velhos carenciados, recomendo um exercício: desloquem-se, à hora da visita, a um lar de idosos (linguagem um tanto rebuscada, esta, a de chamar “lar” àquilo). Não recomendo nenhum em especial. Vão e constatem, com facilidade, que ninguém medianamente remediado aceitaria ficar ali um único dia.

Pois é, seria fácil argumentar dizendo que não há distrito, melhor, não há distritos, não há Alentejo. Pedra no sapato da República Portuguesa, desde 1910, a Planície sempre atrapalhou. Ainda hoje, não passa de um obstáculo a vencer para quem quer chegar depressa ao Algarve e apanha com esta caterva de quilómetros bem suados pela proa. Mas também não é por aqui.

Os velhos não têm é esperança no deferimento da pretensão. Mesmo os que reúnem os requisitos necessários. Dá um trabalho dos diabos e serão poucos os que conseguem tratar de tudo sem ajuda. E depois há aquele pormenor do rendimento dos filhos, pré-requisito surrealista, a cheirar ao mofo de uma época em que, não havendo protecção social, todos tomavam conta de todos. Muita água passou por baixo das pontes mas temos, num governo do séc. XXI, gente cujo horizonte, em termos de solidariedade social, se situa nos meados dos anos trinta do século passado, do Portugal agrícola, do sedentarismo miserável e fatalista, um qualquer determinismo que prendia todos a todos, toda uma vida. Conheci pessoas que não saíram nunca da aldeia onde nasceram, onde viveram e trabalharam, miseravelmente, vendo morrer os seus, enquanto não chegava a sua vez.

Pretender que os filhos têm obrigações materiais para com os pais, eis algo que nos remete para esse (julgávamos nós) enterrado cenário. É desmobilizador para quem já padece de toda a espécie de limitações e se arrasta, esquecido pela prole, no proto-esquife de um asilo. E não acredita na "sorte grande".

Publicado por ACarvalho em 03:53 PM | Comentários (1)

Modo de Ver, Modo de Dizer

Hoje, pelas 18h30, no Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende, em Évora:

Lançamento do livro

Modo de Ver, Modo de Dizer

do Dr. Manuel Joaquim Calhau Branco.

Parabéns Manel. Vou estar presente para te dar um abraço.

Publicado por ACarvalho em 11:46 AM | Comentários (0)

março 15, 2006

O super-atleta

Na linha da aposta da extinta União Soviética (e da Polónia comunista) na criação de atletas extra-hiper-dotados, sem o recurso ao tradicional (e detectável) doping, a China e a Austrália apresentaram, nos últimos anos, dois atletas cuidadosamente "programados" para vencer: o basquetebolista Ming (2,26 metros - mais 10 centímetros que o gigante Shaquille O´neill) e o nadador Ian Thorpe (pé com medida de 52 e formato a lembrar o pássaro mergulhão).

Lembro-me, nos anos sessenta, de uma(?) velocista polaca, um ser humano híbrido, meio-homem, meio-mulher. Imbatível durante um ou dois anos, desapareceu tão depressa como apareceu, carregada de medalhas mas talvez (quem sabe) arrostando uma data de problemas físicos, éticos, morais e eventualmente mentais. Não sei, nunca mais ouvi falar dela.

Em 1996, uma chinesa "programada" para vencer todas as provas de 10.000 metros, terá tido uma avaria no "chip", ao ser batida na corrida que não podia perder: a final olímpica. Derrotada pela portuguesíssima Fernanda Ribeiro, nunca mais foi "primeira página".

A manipulação genética e os alimentos transgénicos produzirão, um dia destes, um super-atleta imbatível, uma Dolly humana corrigida, um Frankenstein incansável durante meses ou anos que terá de se haver depois com as consequências que forçosamente ocorrerão, pagando, com juros, a (vã) glória de vencer. O preço que um gladiador (sempre) paga.

Sigamos as carreiras de Ming e Thorpe. Oxalá não tenhamos de os ver arrastar, um dia, penosamente, os próprios restos.

Não era nisto que Nietzsche pensava ao apregoar o seu super-homem. Ou era?

(Reflexão, a propósito de um artigo do jornal "A Bola", de hoje).

Publicado por ACarvalho em 06:39 PM | Comentários (0)

março 14, 2006

Pagavas pouco? Toma!

As tarifas mínimas da água vão ser aumentadas. É bem feita, ó bravo cidadão do Sol-Posto.

Quem te mandou nascer aqui (acto já claramente censurável) mas sobretudo, quem te obrigou a permanecer aqui, ano após ano, abuso atrás de abuso, lixado e mal pago, assistindo a tudo com um sorriso nos lábios e uns quantos encolhimentos de ombros, ó bonifrate sem acção?

Tens o que mereces, meu "punching-bag" mal acabado. Não tens dinheiro? Faz do "cu" um candeeiro! Paga, malandro!

Ou deixa cortar a água. Assim como assim, já não deixas de cheirar mal... é que, parolo, tu consubstancias o cheiro da tua circunstância: cagam-te em cima e limitas-te a sacudir a merda!

PS: Entendam esta "linguagem" ordinária no contexto da intenção literária, aqui claramente gongórica e premonitória, como no "libretto" de D. Giovanni ou no "Velho do Restelo", do bravíssimo Luís Vaz, mas bebendo, sobretudo, do processo de metamorfose dramatúrgica de Gil Vicente (consabidamente incapaz na ciência da animação de mortos, mau grado o esforço). É tudo a bem da arte. Samicas, quem sabe?

Publicado por ACarvalho em 02:18 PM | Comentários (1)

março 13, 2006

Tanta asneira, a monte, é demais

O João Norte (do intro.vertido) terminou o comentário ao meu post anterior com a frase que dá título a este.

E eu acrescento que a sanha a que se refere e que se resume em tanta asneira a monte não é demais. É pensada com vista a desmoralizar a classe docente. Só assim se entende esta estratégia.

Qualquer pessoa comum (e não precisa de estar muito atenta) entende facilmente que os actos da ministra e de Valter Lemos, juntamente com a direcção da CONFAP têm feito mais mossa na credibilidade dos professores do que todos os actos governativos de todos os ministros juntos, do 25 de Abril a esta parte. Alguns consubstanciam processos persecutórios que pensávamos completamente afastados da democracia portuguesa, a saber:

1- As famigeradas listas de professores grevistas aos exames;
2- A divulgação das faltas, no dia da última greve.

O primeiro tinha por objectivo atemorizar os professores; o segundo pretendia criar na opinião pública uma imagem que mostrasse a classe como gente relapsa e absentista. Como (senso comum) estes actos prejudicam não só os docentes mas também (e sobretudo) toda a estrutura educativa, a pergunta que fica é esta: Eles estão de boa fé? Ou trata-se de uma grosseira inabilidade política?

Publicado por ACarvalho em 09:24 PM | Comentários (0)

Avaliar a avaliação da avaliação...

Se for por diante a ideia, hoje avançada, de avaliar os professores recém- formados, com um exame pós-graduação, vamos assistir à implantação de uma ideia genial: o Estado, desconfiado das instituições do Estado, inspecciona o resultado final do próprio trabalho, criando um exercício de auto-flagelação.

Incapaz de (pré-)regular um funcionamento eficaz, refugia-se num julgamento, a posteriori. Deixa realizar um trabalho em que não acredita e só depois entra em acção, punindo as faculdades e os alunos.

Em última análise, um exercício auto-punitivo, um acto masoquista, uma perda de tempo, um acto de má gestão de um recurso, melhor, de vários recursos e do (muito) dinheiro gasto na formação de activos importantes, como são os licenciados em geral, e os professores, em particular.

A questão é: se o governo não acredita no trabalho levado a cabo na formação de professores, deve reestruturar o trabalho e, em última análise, os cursos. Se se trata de uma estratégia que visa atrasar a entrada de (uns tantos) professores no circuito, então, nem vale a pena comentar.

Já agora, devo dizer que, para mim, é disso mesmo que se trata: criar uma espécie de ano zero para (alguns) novos professores, retidos mais um ano sem trabalho, sem quaisquer custos. Isto, na sequência da medida que acaba com a remuneração dos estágios, faz todo o sentido.

Todas as medidas que vejo levar a cabo em diversas áreas administrativas, por muita imaginação que os motivos invocados denotem, são de natureza economicista. Eles sabem que é assim e sabem que nós também sabemos, logo, não se dêem ao trabalho de perder tempo com retórica.

Publicado por ACarvalho em 01:52 PM | Comentários (2)

março 11, 2006

Conto rubicundo

Era um conto rubicundo
De pensamento profundo.
Transportou certo leitor,
De visita ao interior
Do seu intrincado enredo:
História de meter medo!

Envolve-o de tal maneira
Que o prende até terça-feira.
E no final desse dia,
O sujeito evidencia
Os sinais de leitor louco:
Convicto que fosse pouco,
O tempo passado a ler,
Quis toda a história rever.

Pôs-se o conto a decidir
Do leitor a sua sorte:
Não mais o deixou sair,
Prendeu-o até à morte.

A. Côrte-Real

Publicado por ACarvalho em 01:38 PM | Comentários (0)

março 09, 2006

Como vai ser?

Um discurso programático não é coisa para PR. O programa de um Presidente é o que lhe é conferido pela Constituição. É sempre igual. O mais são "nuances". Como poderemos depositar toda a esperança no mais alto magistrado da Nação? Claro erro de "casting". Sem um bom governo, não há Presidente que nos valha.

Ou vamos ter confusão de competências ou não há discurso útil para um Presidente da República, no actual regime. Magistratura de influências? Sim, claro. Mas... que mais?

Publicado por ACarvalho em 06:31 PM | Comentários (3)

Era (mesmo) redonda!

Hoje passa o aniversário de Iury Gagarin, o primeiro homem a ver a Terra a partir do espaço. No fundo, o primeiro a realizar a prova de S. Tomé da esfericidade do 3.º calhau: ver com os próprios olhos que o planeta era (mesmo) redondo e (predominantemente) azul. Fez uma volta à Terra, a uma altitude de 302 Km, durante 108 minutos.

Continuou a fazer parte dos projectos espaciais soviéticos até à data da sua morte, com apenas 34 anos, no decurso de uns testes de vôo.

Veja AQUI no Realplayer, um pequeno "slideshow", da vida do astronauta. (abamedia.com)

Publicado por ACarvalho em 02:52 PM

20 anos

Vinte anos depois do anúncio dos pressupostos fundamentais da entrada na antiga CEE, crescimento económico e qualificação dos recursos humanos, Cavaco aponta, judiciosamente, o caminho a percorrer: crescimento económico e qualificação dos recursos humanos.

Um bocejo seguido de outro, eis o que conversa desta me suscita. Ou Portugal não existiu durante 20 anos; ou nos é oferecida, prestimosamente, uma versão remasterizada de um disco de grafonola, isto é, um vinil adaptado a CD, sem, ao menos, a preocupação de um novo arranjo de orquestra: os mesmos intérpretes, os mesmos instrumentos, a mesma música. Percebem por que nunca ganhámos o Festival da Eurovisão?

Publicado por ACarvalho em 01:33 PM | Comentários (1)

março 08, 2006

Dia Internacional

Ele é o Dia Internacional da Mulher, da Pessoa com Deficiência, do Livro, dos Museus, do Voluntariado, da Paz, da Solidariedade, da Destruição das Armas, da Dança, da Língua Materna, da Ciência, da Água, da Árvore... até da Segurança Informática e, pasme-se, o Dia Internacional Anti-McDonald.

Um só movimento, um só esforço, uma só vontade, substituiriam, com vantagens, todos os Dias Internacionais de Qualquer Coisa: EDUCAÇÃO.

Uma espécie ou um direito ameaçados, pimba, um Dia Internacional.

Um dia, os poucos que ficam de fora terão também direito ao seu Dia Internacional: O Dia Internacional Dos Que Não Têm Dia Internacional.

Declaro, urbi et orbi: o Dia Internacional de Qualquer Coisa começa por ser discriminatório e descricionário para a Coisa. Não basta celebrar, é preciso educar. Os Dias Internacionais são libelos de auto-inflicção: Todos somados resultam num pouco edificante reconhecimento - o de que nós, os homens e mulheres deste Mundo, vamos continuar umas bestas-quadradas até ao final dos tempos.

Já agora, um beijinho às mulheres-mães-amantes de todos os homens e mulheres.

Publicado por ACarvalho em 09:48 AM | Comentários (0)

Uma nota pessoal

Peço desculpa. Nem todos os posts têm de ser judiciosos e(ou) interventivos. Hoje, abre-se aqui espaço para uma nota pessoal.

A Sílvia, a minha sobrinha-neta, faz anos e convidou-me para a sua festa.

Parabéns à mais jovem das minhas leitoras, autora de um delicioso comentário ao post que escrevi sobre a sua cidade.

Publicado por ACarvalho em 12:04 AM | Comentários (0)

março 07, 2006

Mataram a Tuna

Leia apenas ou OUÇA, SEGUINDO ESTE LINK

Ou faça as duas coisas: leia primeiro e OUÇA LOGO DEPOIS.


Nos Domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve.
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.

Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar...)
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

No entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha
parecia até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.

Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretarias do comércio.
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita
despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

Manuel da Fonseca

Publicado por ACarvalho em 07:20 PM | Comentários (0)

O Bolero

Faz hoje anos que nasceu Maurice Ravel (7 de Março de 1908).

Compôs o famoso BOLERO, aos 20 anos de idade! Um tema com sonoridade espanhola que continha "quelque chose d´insistant".

Segundo o THE GUARDIAN, até 2001, as inúmeras exibições e gravações da peça tinham valido qualquer coisa como 40.000.000 de libras, de "royalties". O jornal interrogava-se sobre o destino desse dinheiro e investigou uma série de ligações e parentescos, não tendo chegado a nenhuma conclusão. Onde pára essa quantia? Mistério! Entretanto, sabe-se que o estatuto de domínio público só será alcançado em 2025. A propósito, a quem terão sido pagas as "royalties" devidas pela utilização do tema no célebre filme de John Derek, "Dez, uma Mulher de Sonho", com Bo Derek?

Estima-se que tenha sido a obra clássica mais tocada, na história da música (de 15 em 15 minutos, por esse mundo fora, desde que foi composta).

O tema, em crescendo e aceleração, repete-se 18 vezes. Um famoso psicólogo chegou a invocar o facto para provar que o compositor sofria de Alzheimar (aos 20 anos!!)

Citação:
"Qualquer pessoa assobia os primeiros compassos do Bolero. Mas muito poucos músicos são capazes de reproduzir, de memória, sem um erro de solfejo, a frase inteira, se se preocuparem em obedecer a todas as subtilezas e sábias coquetteries" (Emile Vuillermoz, 1938).

Veja www.maurice-ravel.net

Publicado por ACarvalho em 02:14 PM | Comentários (1)

março 06, 2006

O pão de Cicioso

A propósito de um comentário a um texto que escrevi no forum do site de Maria de Fátima Moura, comentário que mencionava a ligação do Príncipe Perfeito a Évora, ocorre-me contar o seguinte episódio:

D. João II passava longos períodos em Évora. Ocorreram, nesta cidade, alguns episódios ligados ao seu reinado.

O que vou contar, prende-se com a falta de pão, na cidade-museu, num mau ano agrícola. Apelando à boa vontade de parte da nobreza e de alguns homens abastados que possuíam cereal armazenado, o Rei ofereceu-lhes o pagamento de 30 réis o alqueire, com o fim de minimizar as necessidades do burgo. Um preço relativamente elevado.

Contudo, na expectativa de maiores ganhos, quase todos recusaram. Ao apelo, apenas respondeu um cidadão que colocou as suas reservas à ordem do Rei, dispondo-se a um recebimento de apenas 20 réis. D. João II pagou a 30 e agradeceu.

Logo a seguir, negociou com produtores castelhanos a compra de cereal e inundou o mercado eborense.

Deste modo, os especuladores que se preparavam para lucros elevadíssimos, à custa das necessidades do povo, ficaram com o trigo em casa e tiveram que vender, no ano seguinte, as reservas a 14 réis.

O cidadão eborense que se pôs à disposição do Rei, de seu nome João Mendes Cicioso, foi o único que lucrou com o negócio. Da sua acção patriótica e da lealdade que demonstrou, nunca mais a cidade esqueceu. Ainda hoje, existe uma rua com o seu nome: Rua do Cicioso.

Uma acção de estratégia bolsista, num mercado sem Bolsa. A sagacidade de D. João II.

Publicado por ACarvalho em 07:26 PM | Comentários (1)

Old-Man-Killer

Dizem que o "Old-Man-Killer" está a fazer jus ao nome. Todos os dias há acidentes envolvendo o popular "Mata-velhos".

Neste caso, apenas velhos, porque nenhum jovem tem topete para se enfiar naquilo: o descrédito junto das miúdas seria fulminante e sem remissão.

É, portanto, coisa de idosos, e de idosos sem carta de condução.

Embora haja muitos jovens que conduzem de forma mais perigosa que um velho "acelera" coxo e sem carta, não podemos ignorar essa coisa "comezinha" chamada envelhecimento, que envolve mudanças físicas e mentais, associadas a outros processos. Tudo junto acaba por afectar a competência mínima necessária a uma condução segura. Existem inúmeros estudos que o comprovam.

Assim, o envelhecimento associado à moda dos carrinhos com motor (já para não falar no hábito cada vez mais "in" de conduzir fora de mão, nas auto-estradas), é capaz de se revelar uma combinação explosiva e ajudar a resolver o problema da pirâmide invertida que marca a evolução populacional em Portugal e nos países desenvolvidos, desde os anos 80. E já agora, ajudar a resolver a crise financeira da Segurança Social.

Publicado por ACarvalho em 06:15 PM | Comentários (0)

Regresso à barbárie?

1908 - A Secretaria da Educação de Nova Iorque proíbe o chicote como instrumento de punição corporal nas escolas. Foi há 98 anos (feitos anteontem).

No entanto, mais de 60 anos depois da morte de Janusz Korczak, paladino da luta pelos direitos da criança, e quase 100 anos depois da percussora medida da Secretaria da Educação Novaiorquina, pasme e leia in Catecismo da Igreja Católica (Índice analítico), citações, à letra, dos castigos paternais (?) da Antiguidade, em textos das Sagradas Escrituras. Contêm, claramente, uma sugestão. Veja:

§2223 Os pais são os primeiros responsáveis pela educação de seus filhos. Dão testemunho desta responsabilidade em primeiro lugar pela criação de um lar no qual a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado são a regra. O lar é um lugar apropriado para a educação das virtudes. Esta requer a aprendizagem da abnegação, de um reto juízo, do domínio de si, condições de toda liberdade verdadeira. Os pais ensinarão os filhos a subordinar "as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais." Dar bom exemplo aos filhos é uma grave responsabilidade para os pais. Sabendo reconhecer diante deles seus próprios defeitos, ser-lhes-á mais fácil guiá-los e corrigi-los:

"Aquele que ama o filho usará com freqüência o chicote; aquele que educa seu filho terá motivo de satisfação" (Eclo 30,1-2). "E vós, pais, não deis a vossos filhos motivo de revolta contra vós, mas criai-os na disciplina e correção do Senhor" (Ef 6,4).

Uma sumária observação da ortografia mostra-nos tratar-se de um site editado no Brasil mas, para o caso, é irrelevante. As crianças são maltratadas em todo o mundo.

Depois de mais uma morte violenta de uma criança, em Portugal; com mortes violentas de crianças, todos os dias, por esse mundo fora; e mais toda a espécie de abusos... fica a pergunta: o que se pretende exactamente, com estes textos que era suposto conterem indicadores e reflexões de natureza pedagógica? O regresso à barbárie?

Publicado por ACarvalho em 02:24 PM | Comentários (1)